2/15/2022

NATAL KENÓTICO

Há uma palavra grega que Paulo usa quando, escrevendo à igreja de Filipos, narra, à sua maneira, o evento do Natal. A versão paulina do Natal está nestas palavras:

“Que sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.” Filipenses 2: 6-11

1 - O Natal Como Esvaziamento

A palavra grega usada por Paulo para descrever o Natal é “ekenoosen” que significa “esvaziar-se”. Ao afirmar a natureza Kenótica do advento de Cristo, Paulo, longe de afirmar que a encarnação do Verbo seja o abandono da natureza divina, está afirmando que, por amor, assumiu a condição humana.

O evento do nascimento pode ser entendido como um processo de humilhação que Deus a si mesmo se impôs, não por outro motivo que o amor. Cristo não foi “menos Deus” por causa da encarnação, mas conciliou em si as duas naturezas. Os teólogos chamam a isto de “unio hypostática”, pois nEle o divino e o humano se integram perfeitamente, sem que o divino supere o humano, ou o humano ofusque o divino.

Assim, no pensamento paulino, o Natal é kenótico, é um esvaziamento de Jesus como Deus que é, sem que isto o diminua na sua glória divina.

É fundamental entender que o humilhar-se não é o negar-se. Ninguém é menos digno porque se humilha. O humilhar-se não denigre, não macula, não destrói. Cristo humilhou-se e nem por isto deixou de ser o Deus que é.

2 - O Natal Como Exaltação

Por outro lado, o Natal, segundo a versão paulina, é a exaltação do ser humano. Deus a tal ponto amou que não teve dúvidas em, mesmo que humilhando-se, assumir a forma humana. Ao fazê-lo, deu à humanidade um valor que a exalta sobre toda a criação.

O próprio texto afirma que Cristo recebeu a mais alta honra e homenagens tanto no céu como na terra.

Assim se estabelece outra verdade bíblica: “humilhai-vos diante da potente mão do Senhor e Ele, a Seu tempo, vos exaltará”. O Natal é a prova de que Aquele que se humilhou assumindo a forma humana foi por Deus exaltado. Apesar de ter nascido numa manjedoura na periferia da periferia, teve anjos cantando o Seu nascimento, recebeu a visita dos magos, uma estrela O anunciou. Apesar de não “ter onde reclinar a cabeça” e ter morrido numa cruz, ressuscitou e foi coroado de glórias.

3 - O Natal Como Adoração

O texto paulino afirma que o verbo encarnado e exaltado receberá o louvor, pois todos se prostrarão e confessarão que Jesus é o Senhor. Isto se deu no nascimento, com o louvor dos anjos, com a adoração dos magos. Isto se dá há quase dois mil anos quando joelhos têm se dobrado em todo o mundo para adorá-lo.

Qualquer outra atitude além da adoração é desvirtuamento do sentido do Natal. Este é tempo não de levantar brindes, mas de dobrar joelhos. Este é tempo de reconhecer que Ele se humilhou para nos exaltar e que nós devemos nos humilhar para exaltá-lo.

Marcos Inhauser

OS MAGOS NO NATAL

Uma das figuras tradicionais no moderno jeito de se comemorar o Natal é a presença dos magos nos presépios e nas histórias natalinas. Ocorre que a questão dos magos é problemática. Dou a seguir algumas indicações disto.

1 - QUEM SÃO OS MAGOS?

A palavra grega usada por Mateus para referir-se aos magos é utilizada para os astrólogos e mágicos. Este sentido foi dado por Inácio, Justino, Tertuliano, Orígenes e Hilário. Outros textos antigos parecem indicar que se tratavam de sábios que assessoravam reis e governantes, sendo entendidos nas ciências, matemática, química e astronomia. Se esta era a intenção do escritor de Mateus, estamos diante de um problema: são os astrólogos e os mágicos referendados pela revelação bíblica como forma de predizer ou descobrir eventos espirituais do Reino de Deus?

A verdade é que a inserção destes personagens no evangelho de Mateus tem trazido mais problemas que solução. Estudiosos sérios do Novo Testamento têm levantado dúvidas quanto ao texto. Uns preferem pensar que se trata de uma inserção posterior (alguém que mais tarde colocou os magos no evangelho com interesses próprios), outros preferem ver neles a tentativa do evangelista em incluir no advento elementos gentílicos (os magos vinham do Oriente, com toda certeza uma nação gentílica). Com isto, o evangelista estava querendo dizer que os sábios de outras nações reconheceram que um grande rei havia nascido. Outros estudiosos preferem apontar para a fragilidade da tradição dos magos, salientando que somente Mateus se refere a eles, que não há evidências históricas para a presença dos magos junto a Herodes que justifique a sua decisão de matar a todos os menores de dois anos.

Diante disto, não é meu intento desmerecer o relato bíblico, mas apresentar as problemáticas a ele relacionadas. Confesso que não gosto da idéia de considerá-los astrólogos e mágicos, uma vez que, em inúmeras passagens da Bíblia se condena tal prática e aceitar que isto tenha ocorrido no evento da nascimento de Jesus Cristo, seria referendar algo condenado.

2 - ERAM REIS OS MAGOS?

Outro aspecto problemático em relação aos magos é dizer que se tratavam de “reis”.  O relato evangélico de Mateus não se refere a eles como reis, mas simplesmente como magos. De onde, então, surgiu a questão dos reis magos? Tudo nos leva a crer que isto se deve à tradição que, valendo-se de Sl 72:10, Is 49:7 e talvez  Is 60:3, tenham inferido que se tratavam de reis os que visitaram a Jesus. No entanto, nada há no texto do evangelho que ao menos sugira tal hipótese. Tudo nos leva a crer que os intérpretes posteriores, preocupados em conferir realeza ao nascimento do rei de Israel, forçaram a interpretação para colocar Jesus sendo visitado por reis de outras nações. No entanto, à luz do que está no outro artigo neste espaço (Outras Dimensões do Natal), Jesus não teve nenhuma preocupação em conferir realeza ao Seu nascimento, antes preferiu a manjedoura e o nascimento sem pompa e circunstância.

Assim, é erro crasso das igrejas, inclusive as evangélicas, que se arvoram em se basear só na Bíblia, afirmar que Jesus foi visitado por reis por ocasião do Seu nascimento.

3 - ERAM TRÊS OS MAGOS?

Outro problema com a questão dos magos é o número deles. O relato evangélico não diz quantos eram. Já na idade primitiva da igreja, se discutia sobre isto. Os cristãos orientais têm uma tradição que afirma que eram doze os magos que visitaram o bebê, cada um deles representando uma das tribos de Israel. Há, contudo, mosaicos antigos que retratam somente dois magos na visita. Houve, ainda, quem afirmasse que se tratava de onze magos, pois prefiguravam o número dos discípulos fiéis de Jesus Cristo. A tradição de que foram três os magos se firmou somente no século sexto da era cristã, afirmando que eram simbólicos da presença da Trindade. Se assim é, a coisa não está muito bem explicada, porque Jesus, sendo uma das pessoas da Trindade, não precisaria estar representada, pois Ele mesmo ali estava.

Para corroborar a tradição dos três magos, uma mulher, a imperatriz Helena, mãe de Constantino, o Grande, fez uma excursão aos lugares onde Jesus viveu e morreu, e acompanhada de um astrólogo e outros eruditos, conseguiu “descobrir” o local exato do nascimento de Jesus (só Deus sabe como!!!!) e no local ela encontrou três esqueletos que imediatamente concluiu tratar-se dos magos. Daí, os magos têm que ser três!!!!!

4 - ONDE OS MAGOS VISITARAM A JESUS?

Mais outro problema: os magos, na moderna versão dos presépios e nas histórias de Natal contada, visitaram Jesus na manjedoura. Ora isto não tem a menor base bíblica. Em nenhum momento o evangelista afirma que isto assim se deu. Antes, pelo contrário, o evangelho coloca que Herodes “inquiriu deles com precisão quanto ao tempo em que a estrela aparecera” (Mt 2:7) e, mais tarde, quando Herodes se vê enganado pelos magos, decide mandar matar as crianças com menos de dois anos de idade, “conforme o tempo do qual com precisão se informara dos magos” (Mt 2:16). Além disto, quando os magos chegaram, perguntavam onde estava o menino, porque, mesmo sabendo onde Ele havia nascido, não foram para lá, mas indagavam em Jerusalém sobre o paradeiro do menino.

Aliado a isto, há que considerar-se que o relato diz que a estrela parou em cima da casa onde Maria e Jesus estavam. Não menciona que se tratava da estrebaria, antes fala de uma casa.

Diante disto, sou inclinado a ver com resistência a moderna maneira de se referir aos magos e de colocá-los na estrebaria, de referir-se a eles como reis e que eram em número de três. Prefiro dar mais ênfase ao que nasceu do que os que o visitaram.

Marcos Inhauser

O NATAL NA TIA ALDA

O Natal não faz parte da minha infância e adolescência. Por mais que me esforce, não consigo lembrar de um jantar ou almoço, árvore de Natal ou coisa parecida que tenha ocorrido em casa. Presentes, quando houve, foram feitos pelo meu pai.

Isto se deveu às precárias condições financeiras. Vivíamos sem passar fome, mas sem possibilidades de qualquer exagero. Minha mãe, quem controlava ao dinheiro, anotava cada centavo gasto e “esticava” as moedas para chegar ao final do mês. Ela e minha avó materna completavam a renda plantando flores e mandioca que vendiam.

Quando era Natal, eu mal comia em casa e saía correndo para a casa da minha tia Alda. Lá estavam meu avô, minha avó, minhas tias, tios, primos e primas. Era uma fuga para ir à casa da tia Alda. Quando lá chegava era uma festa. Eu me sentia acolhido, amado. Era o tempo com meu avô que, separado de minha avó, eu só o via por ocasião do Natal. Ele me fazia sentar ao seu lado, perguntava um monte de coisas, se interessava por mim. Árvore de Natal? Não me lembro se havia. Elas não eram importantes para mim. Presentes? Não havia. Era o tempo juntos. Mas não me esqueço que, em um Natal, meu avô me trouxe um periquito australiano. Foi a glória. Era como se me vô fosse ficar o ano todo junto comigo.

Deste tempo ficam as lembranças das peripécias que fazia para escapar do almoço em casa e ir para a tia Alda, do tempo com meu avô, minhas primas e tias. Não era por causa do presente. Era por causa do tempo de alegria, da sobremesa, do café no final da tarde.

Obrigado, tia Alda, por ter me propiciado tão indeléveis memórias.

Marcos Inhauser

O QUÊ MARIA DIRIA?

Sou vidrado em música de Natal. Nenhum outro evento da humanidade produziu tantas e tão maravilhosas músicas como o Natal. Devo ter umas 700 delas em meus arquivos e as ouço com frequência, sendo ou não tempo de Natal.

Uma delas é “Mary, did you know?” (Maria, você sabia?) cuja letra pergunta à Maria se ela tinha ciência de que Jesus faria tudo o que fez. Esta música e letra me levaram a pensar na seguinte suposição: se Maria ressuscitasse e fosse assistir a uma das cantatas de Natal apresentadas em muitas das igrejas, se ela visse os presépios com os animais ao lado do bebê deitado em palha, se ela lesse o que está nos evangelhos relatando como foi a gravidez e parto de Jesus, o que ela diria? Ele se veria nos relatos?

Li que Mandela, quando quiseram fazer um filme sobre a sua vida (Invictus), decidiu quem seria o ator (Morgan Freeman) e quis ver o filme antes de ser finalizado. Queria ter a certeza de que as “licenças cinematográficas” não tinham deformado o personagem. Li também de outro personagem que foi retratado nas telas e que, quando assistiu ao filme sobre a sua vida, disse: “esse não sou eu”. O Jesus retratado por Mel Gibson é um atentado: nunca soube de um corpo que jorrou tanto sangue quanto o Jesus deste filme. Exagero puro!

Sabe-se que os três primeiros evangelhos foram escritos a partir do ano 50 d.C., pelo menos dezessete anos depois dos fatos que narram. Sabe-se também (ainda que conservadores refutem esta afirmação), os escritores dos evangelhos não foram testemunhas oculares dos fatos, mas escreveram a partir de investigação que fez (Lucas) ou das narrativas orais que circulavam nas igrejas. O evangelho de João, escrito mais tarde, no entender de alguns estudiosos, não é autoria de uma pessoa, antes é um editor que recolheu as reflexões da comunidade joanina, razão pela qual o quarto evangelho é mais denso e teológico.

Não é de se estranhar que as narrativas evangélicas possam ter passado por um processo de “licença histórica”, dando ao personagem certas cores mais acentuadas do que na realidade foram. Os escritores dos evangelhos não eram historiadores (prova disto é que a sequência dos fatos apresentados nos evangelhos difere na cronologia), nem eram jornalistas com capacidade descritiva aguçada. Eles escreveram em um ou mais tipos de gênero literário que estudiosos têm apontado. Um deles, brasileiro, Francisco Leite, em seu livro “Ele está Fora de Si”, disseca os gêneros literários presentes nos evangelhos e mostra um texto do evangelho de Marcos onde faz uma hermenêutica maravilhosa.

Acredito que Maria, se ressuscitasse e lesse ou ouvisse as histórias sobre Jesus, teria vários senões e reparos. Isto não desmerece a história, mas autentica os detalhes. Há nos relatos uma essência: um nascimento simples e humilde. Sem pompa e luxo, uma infância atribuladas por questões políticas, a necessidade da migração para sobreviver, o período de espera, um ministério que começa em um casamento mal planejado porque o vinho acabou, uma peregrinação pela periferia de uma nação periférica e dominada pelo invasor, pais que tinham que pagar pesados impostos aos coletores, a mensagem “fora da caixa” que era constantemente bombardeada pelos “donos da religião”, um final trágico com a crucificação e uma ressureição para a glória eterna.

Muitos pregadores da prosperidade excluem da vida de Jesus o Getsemâni, porque o lugar do sofrimento. O Cristianismo sem o Getsemâni é anti-evangelho. O evangelho do sucesso é a negação do evangelho, uma aberração.

No Natal os pastores (o chão da sociedade) foram contemplados. Se foi na estrebaria, até os animais participaram, como retratam os presépios. Algo sem pompa e circunstância. Um Natal inclusivo para os esquecidos e excludente para os ricos e poderosos!

Marcos Inhauser

DIMENSÕES DO NATAL

Estamos acostumados a ver o Natal a partir da ótica que as igrejas cristãs no-lo apresentam e criticamos a exploração comercial que dele se faz. Há contudo, algumas dimensões do Natal que merecem ser consideradas. Quero levantar alguns destes aspectos.

1 - A expectativa messiânica versus a cegueira nacional

Durante muito tempo, por causa das provações e privações que a nação de Israel passou, especialmente por causa do exílio e das invasões e domínio por outros povos, surgiu em Israel uma expectativa messiânica muito forte. Esperavam o aparecimento daquele que se sentaria no trono de Davi e traria a liberdade e a paz. Neste período também surgiu em Israel um novo gênero literário chamado apocalíptica que animava o povo com a esperança do Messias e da restauração nacional. Ocorre que havia uma defasagem entre a expectativa e a forma como os fatos se deram. A vinda do Messias deu-se de forma diferente daquela que donos da religiosidade judaica anunciavam. Por esperarem os acontecimentos de uma determinada forma, estiveram cegos para a concretização da expectativa messiânica tal como ela se deu. Haviam determinado como seriam os fatos relativos à vinda do Messias e não lograram ver que as coisas se davam em uma outra dimensão.

O mesmo ocorre hoje em dia. Muitos há que determinam como Deus atua, sendo tão incisivos, que podem se tornar cegos para a forma como Ele atua. Um versículo que poucas vezes se estuda neste contexto é o de Jo. 3:8 “O vento sopra onde quer, ouve-se a sua voz, mas não se sabe de onde vem, nem para onde vai”. Este texto coloca a imprevisibilidade e a independência da ação de Deus. Foi assim no primeiro Natal: Ele quis que fosse um casal simples, que nascesse em uma manjedoura, que fugissem para o Egito para não ser morto pelo invasor romano (Herodes). Assim é até hoje. O Natal é a advertência de que Deus não age segundo o que os religiosos ditam ou determinam. Ele faz da forma como quer, sem ter que pedir licença a ninguém, nem tem que dar explicações a quem quer que seja.

2- O machismo imperante e a ação de valorização da mulher.

A sociedade nos tempos do nascimento de Jesus era extremamente machista. Mulheres e crianças não eram contadas para nada. O homem julgava ser superior àquela que Deus lhe deu por companheira. No entanto, Deus dá uma volta neste machismo: decide suscitar descendência à mulher sem o concurso do homem. Em outras palavras, era uma forma de dizer: O Messias que dou para salvar a humanidade virá da parte considerada fraca pela sociedade ¾ a mulher. Entendido no contexto social daquela época, isto era altamente humilhante para o todo suficiente homem. Na história de Jesus, o pai de Jesus, José, entra como acessório, como apêndice, não como parte substantiva. Desta forma, o Natal é um evento de valorização dos fracos, desprezados, débeis, marginalizados, inferiorizados. O Natal só é verdadeiramente celebrado quando nos damos conta desta verdade: Jesus veio para valorizar a mulher massacrada que estava pela estrutura cultural imperante. Ele o fez através de Maria, das irmãs de Lázaro, da Samaritana, da mulher que lhe ungiu os pés, das mulheres que foram buscá-lo no túmulo.

3 - A subversão dos valores dominantes

À parte do exposto anteriormente, há que acrescentar-se que, na história de Jesus, há uma sucessão de fatos que mostram o compromisso de Deus em subverter os valores sociais e políticos vigentes. Ele não escolheu a capital do império, Roma, para nascer. Nem mesmo a capital de um povo subjugado (Jerusalém). Antes preferiu a pequenina e esquecida Belém. Não nasceu em um palácio, mas preferiu a estrebaria. Não usou de carruagens para suas locomoções, fazendo-o a pé ou em um jumento.  Não começou o seu ministério em um estádio repleto, mas em um casamento mal planejado, onde faltou vinho. Não foi aos poderosos pedir favores, antes, quando convidado por um deles, mandou um recado nada diplomático: “Diga aquela raposa que eu expulso demônios”. Jesus não “seguiu a onda” dos valores dominantes. Não se deixou levar pelo entusiasmo com o número dos seus seguidores, antes ficou com apenas doze discípulos. Atendeu gente humilde, sofrida, desprezada. O nascimento e ministério de Jesus Cristo têm sido negados por muitos dos seus seguidores, que preferem as grandes concentrações, a aparição esteticamente planejada das televisões, os cafés-da-manhã com os poderosos de plantão. O filho do carpinteiro de Nazaré é, na versão moderna, o “Super-Star”, frase mágica para as riquezas fáceis dos mercadores da Palavra. Já não é o Cristo com a toalha a lavar os pés dos discípulos, nem aquele que não tinha onde reclinar a cabeça. O elemento sacrificial do “tomar a cruz para segui-Lo” cedeu lugar à prosperidade decorrente do discipulado. O Cristo que alertou que teríamos sofrimento foi substituído pelo Cristo do sucesso empresarial e financeiro.

4 - A prática da exclusão e a prática da inclusão.

Os tempos de Jesus eram marcados por fortes controvérsias religioso-políticas. Fariseus, saduceus, herodianos, zelotes e essênios se excluíam mutualmente, cada qual julgando ser a única fonte de verdade e salvação. O nascimento de Jesus se dá num contexto religioso (os anjos anunciam o Seu nascimento) mas nenhum destes grupos foi privilegiado. Em Seu ministério Jesus não foi fariseu, nem saduceu, e até hoje não se pôde provar que tenha sido essênio ou zelote. Mas entre os que Ele chamou, teve o cuidado de incluir pessoas vindas dos mais variados estamentos sociais e religiosos. Com isto, deixou de lado a prática exclusivista e sectária, e praticou um inclusivismo abrangente, colocando lado-a-lado no colégio apostólico a publicanos e zelotes, inimigos políticos.

Hoje em dia, a prática sectária é comum e muito atuante. Há denominações que se vêem umas às outras como inimigas. Exclui-se a este ou aquele do círculo de amizade por ter esta ou aquela posição teológica. A cooperação entre as diferentes correntes teológicas é algo que se faz em pequenos círculos. Vivemos épocas em que é mais fácil salientar as diferenças que trabalhar pela unidade do Corpo de Cristo.

5 - A racionalidade científica e o milagre da fé.

No Natal até as virgens dão à luz. O fenômeno do nascimento de um ser humano sem a participação do sêmen masculino é algo que se pode atribuir ao gênero literário ou à licença poética. A fecundação de Maria tem, no entanto, sua lógica: se Jesus Cristo, para ser o Salvador da humanidade, precisava ser humano (a parte de Maria), deveria nascer entre eles. Por outro lado, se a salvação por Ele conseguida tinha que ser eterna, devia ser também divino (a parte do Espírito Santo), conciliou em si mesmo as naturezas humana e divina. Isto nos mostra que Deus é o Deus dos impossíveis, que tem um compromisso com o ser humano a ponto de fazer-se um deles.

Estes aspectos nos levam a pensar que o Natal é algo mais que uma celebração, onde uma mesa é servida, presentes são trocados e desejos de felicidade e sucesso são mutuamente transmitidos. O Natal, nesta dimensão não é algo a ser celebrado em um só dia, mas algo que tem a ver com todos os demais dias e áreas da vida humana. Não de se trata de uma celebração, mas de um estilo de vida. Não é celebração, é compromisso.

Marcos Inhauser

NATAL: A CELEBRAÇÃO DA FALTA DE ESPAÇO

O relato evangélico narra que Jesus nasceu em uma manjedoura porque não havia lugar nas hospedarias para seus pais. A falta de espaço marcou o primeiro evento do Natal e, parece-me, deu a tônica das demais celebrações.

Não gosto deste período do Natal. Tenho para comigo que a falta de espaço é a coisa mais encontradiça nestes dias. Se vou ao centro da cidade, não encontro espaço para estacionar o carro nas ruas e nem mesmo nos estacionamentos. Se procuro andar pelas ruas centrais, me defronto com a realidade de ir trombando e lutando para poder caminhar em meio a tanta gente que, como eu, procura espaços. Se vou ao restaurante, encontro mesas e mais mesas ocupadas por gente de empresas em jantares de confraternização e lá fico eu esperando que haja espaço para poder me acomodar e comer. Se vou ao shopping, não há espaço para estacionar o carro, não há espaço para andar, não há mesas vazias para se sentar e comer.

Na televisão há uma invasão de filmes dedicados ao tema, mas não há espaço para a criatividade. É uma repetição eterna das mesmas coisas. Já assisti ao mesmo filme umas três vezes e não o fiz mais não porque não fosse reapresentado.

Se fico em casa, sou bombardeado por uma infinidade de vezes que a campainha toca. É gente pedindo um presente de Natal. Já recebi cartões de uns cinco lixeiros, dois varredores de rua, um que diz que tapa buracos, outro que limpa as ruas, outro que conserta placas de trânsito, mais um que coleta papelão e vidros do meu lixo. Há ainda (e destes não recebi nenhuma solicitação) os carteiros e guardas noturnos. É um presente obrigatório que a gente tem que dar. Há que se considerar também que a educação manda retribuir cartões recebidos, presentes ganhos, telefonemas recebidos.

Mais, e por paradoxal que possa parecer, as igrejas inflam suas programações, esperando que os fiéis se façam presentes a todas elas. Ao invés de encorajar o tempo em família, promovem eventos, cantatas, dramatizações, apresentações de filmes, que roubam o tempo da família, que fica sem tempo e espaço para celebrar. Na hora de se sentar à mesa para a ceia de Natal, descubro que falta lugar porque há mais gente do que se pode acomodar à mesa.

Não é à toa que o que mais se ouve nestes dias é o desejo de que o ano acabe o quanto antes. Há um quê mágico no dia 31 de dezembro e primeiro de janeiro: tudo começa novo. E na cultura brasileira (graças a Deus) a grande maioria começa com férias. Nisto somos mais privilegiados que os habitantes do hemisfério norte. Começamos o ano descansando. O problema é que tem gente que estende isto e descansa o ano inteiro. Uns por preguiça, outros por inépcia governamental que não dá condições para que haja emprego. Para estes não há espaço para trabalhar. Para estes não há espaço para sonhar. A dura realidade da vida sem emprego e salário não dá espaço para o sonho e a fantasia.

Se isto é Natal, não gosto dele. Há pouco tempo e espaço para celebrar, para curtir a maior história de amor que a humanidade viu e ouviu. Quero um Natal para deitar na rede, para brincar com filhos e netos, para ouvir música natalina, para comer sem me empanturrar. Quero um Natal que me permita comer pão com mortadela e não me obrigue a comer peru e leitoa assada. Quero beber limonada e não champagne ou coca-cola. Quero um Natal de manjedoura e não de palácio.

Marcos Inhauser

 

 

NATAL SILICONADO

Estava em um aeroporto esperando um vôo que estava atrasado. Em minha companhia um amigo da mesma idade minha. Eu aproveitava o tempo para ler um livro. A certa altura meu amigo me interrompe:

- Você já notou que hoje há muito mais moças bonitas que na nossa juventude?

A pergunta me pegou de surpresa, mesmo porque nunca tinha pensado nisto. Imediatamente lembrei da esposa e das filhas (que são lindas) e concordei com ele. Pensando um pouco mais, emendei:

- Também pudera. Hoje há mais cosméticos, shampoos, vitaminas, ginásticas, academias, maior cuidado com o corpo, mais saúde. Não é para menos que haja mais beleza que antigamente.

- Sim. Concordo, retrucou o amigo. O problema de hoje e que não havia na nossa juventude é que se você vê uma mulher bonita você não pode ter certeza de que a beleza seja natural. Depois que inventaram o silicone e aperfeiçoaram as cirurgias plásticas, a dúvida se instalou na minha cabeça: é real ou não? Há mulheres siliconadas, “plastificadas” e cosmetizadas, concluiu o amigo.

A conversa me veio à minha mente nestes dias que antecedem o Natal. Como qualquer cidadão urbano, também fui dar minha volta nos shoppings e no centro da cidade, andei por bairros para ver casas iluminadas com as lâmpadas chinesas e taiwanesas. Não há grande diferença aos outros anos: muitas luzes, enfeites, árvores, bolas, coroas, etc.

Mas desta vez, por uma destas associações que a mente faz e que não sabemos explicar por que, a conversa do aeroporto me veio à mente.

Assim como as mulheres siliconadas apresentam atributos não-naturais, mais vistosos e bonitos, há um efeito siliconizante nos enfeites de Natal e nas decorações comerciais. Há um elemento sedutor nos balangandãs típicos desta época, em uma tentação que visa a levar as pessoas a gastarem mais do que podem, a consumir o que é supérfluo, a acreditar no acessório como se fosse o essencial. Há um quê de convencer que o algo mais que se tem neste mês é fundamental para a felicidade, assim como as plásticas e os silicones são vendidos e comprados como panacéia para a baixa autoestima e para as conquistas maiores da vida.

Esta é a comemoração natalina de muitos e que atire a primeira pedra quem nunca caiou nesta tentação: os silicones da champagne, do pernil, da roupa nova, do carro novo. O problema é que há muito mais silicone no Natal que na nossa juventude.

Marcos Inhauser

 

Marcos Inhauser

ORAI SEM CESSAR

Minha sogra era uma mulher de oração. Todos os dias ela se ajoelhava ao lado da cama e orava por nós. No dia em que faleceu, recebida a notícia, saímos em viagem para o sepultamento pois ela vivia a 400 milhas. No meio do caminho nosso carro parou com sério problema mecânico. Ele foi guinchado e tivemos que terminar a viagem de outro jeito. Foi quando um de nossos filhos disse: “as orações da vovó começaram a fazer falta!”

Paulo e Timóteo, escrevendo aos Colossenses, afirmam que incessantemente oravam por eles. Tudo indica que Paulo era homem de oração e assim discipulou a Timóteo. O interessante é que, lendo a carta que escreveram, só falam de coisas boas entre os colossenses, trazem algumas orientações práticas para vida em comunidade, mas terminam pedindo que sejam persistentes na oração (4:2).

Uma das coisas que noto nas igrejas é que se pede oração pelos problemas, doenças, crises existenciais. Quando, insistindo, se pede que apresentemos os motivos de gratidão e louvor a Deus, é enorme a dificuldade em fazê-lo. É verdade que também devemos orar levando a Deus nossas ansiedades. Na carta aos Filipenses Paulo orienta a apresentar a Deus as petições e ansiedade (Fp 4:6).

Na prática parece que a oração só serve para levar a Deus nossos problemas e ansiedades, mas pouco nos preocupamos em adorar, agradecer e abençoar. A adoração, o louvor, a gratidão, o abençoar devem fazer parte integrante e tão presente quanto nossos pedidos. Há nisto algo que precisamos trabalhar em nossas vidas: ser gratos e mencionar isto em oração. Devemos fazê-lo não no atacado (“te agradecemos Deus por todas as bençãos), mas fazê-lo nominalmente, mencionando explicitamente o que estamos agradecendo, ou louvando ou abençoando.

Que Deus nos ajude a orar sem cessar na plenitude das possibilidades da oração.

Marcos Inhauser

NATAL SEM CRISTO

O impensável está acontecendo: em nome da liberdade religiosa e do politicamente correto, muitos têm suprimido a menção a Jesus Cristo nas suas alusões ao Natal. Cartões de Natal desejando somente Boas Festas e Feliz Ano Novo têm sido preferidos por políticos norte-americanos e europeus, como forma de “não ferir susceptibilidades”.

Isto é muito diferente do comportamento de muitos cristãos do primeiro século. Diante da perseguição do Império Romano que exigia deles que afirmassem que “César é Senhor”, preferiam afirmar “Cristo é Senhor”, mesmo sabendo que isto lhes custaria a vida, como de fato custou a muitos, ao ponto de se ter o Coliseu Romano repleto de espetáculos, onde leões comiam cristãos.

Os modernos cristãos politicamente corretos, em busca do voto de todos os segmentos, preferem esconder a sua condição e assim preservar o mandato, porque temem que muçulmanos, hinduístas, budistas e outros credos possam retirar seus votos. Se os primeiros cristãos não poupavam a vida para afirmar sua fé, estes novos cristãos não entregam a vida e ainda negam a Cristo para salvar seus mandatos.

Este mesmo comportamento vi em Beijing em viagem que fiz. Há um processo crescente de ocidentalização, os shoppings começam a se preparar para o Natal, mas um Natal sem manjedoura, sem recém-nascido, sem Cristo. Não seria imaginável esperar que o Partido Comunista, ateu por definição, promovesse ou ao menos permitisse a propagação da mensagem natalina. Assim, o que se tem é o Natal como oportunidade de aumentar as vendas, como forma de promover jantares e confraternizações, mas sem a centralidade do personagem. Pasma-me que uma das músicas de Natal, a composta por John Lennon, seja uma das mais tocadas, mas nenhuma menção faz a Jesus.

Mas o que mais me preocupa ainda são as celebrações natalinas, que falam de Cristo, mas que têm por finalidade angariar fundos, pelo levantamento de ofertas especiais para sustento de patrimônios. É a mercantilização da fé, via encenações, corais, cantatas, onde o objetivo é ver o “templo cheio”, como sinal de sucesso e garantia de crescimento. São produções que nada têm a ver com a manjedoura, a falta de espaço para nascer.

Gosto do Natal, mas do Natal-família, do Natal-simples, do Natal de R$ 1,99. Meu sonho era um dia ter um Natal onde a comida fosse pão-com-mortadela e Tubaína. Já o tive quando fui a Porto Seguro, junto com amigos queridos.

Marcos Inhauser

EU ME PROMETI ...

.. mas falhei. E não foi a primeira vez. No ano passado também havia me prometido e não consegui.

Eu me prometi que responderia a cada uma das mensagens que recebesse por ocasião do meu aniversário. Ontem sai de madrugada para acompanhar uma membro da igreja em uma cirurgia. Fui para lá e, quando voltei para o almoço, abri meu computador e fiquei impressionado, surpreso e emocionado com a quantidade de mensagens que recebi por ocasião do meu septuagésimo primeiro ano de vida. Olhei o WhatsApp e a mesma coisa. Minha esposa me mostrou a quantidade de gente que escreveu para ela, porque não tinham o meu WA. E lá se foi a minha auto promessa. Seria impossível responder a todos e cada uma das mensagens.

Há algo da minha vida sobre aniversários que tenho trabalhado. Venho de uma família onde aniversário era um dia como qualquer outro. Não me lembro de meus pais terem feito festas de aniversário para mim, para meus irmãos e mesmo para eles. A primeira festa de aniversário que tive foi a de dezoito anos, quando convidei amigos e fomos a um restaurante.

Depois que me casei, foi minha esposa quem introduziu a celebração do aniversário. O que era um dia normal e sem celebrações, passou a ser um dia de festa. Mas era um trabalho doido ter que passar todas as datas de aniversário dos parentes e conhecidos para a nova agenda, no início de cada ano. Com o advento das redes sociais ficou mais fácil: os lembretes pululam e nos levam a recordar de muitos que, queridos e importantes para nós, passariam batidos.

Uma coisa me chamou a atenção nos meus dois últimos aniversários e no de minha esposa: as pessoas que, mais que parabenizar, contaram algo que aprenderam conosco ou algum momento em que fomos importantes para as suas vidas.

Não tenho mérito algum em ter mais um ano de vida. Eu me cuido, procuro comer comida saudável, faço os exames preventivos, mas não tenho a capacidade de obrigar-me a ficar vivo. Este é o departamento de Deus. Mas posso ser útil na vida das pessoas com as quais me relaciono. Isto está ao meu alcance. E ouvir que fui benção na vida de alguém é algo que alegra mais que um bolo de aniversário.

Dou graças a Deus porque, neste meu aniversário, soube de pessoas que agradecem a Deus pela minha vida e pelo que aprenderam comigo. Sou professor/pastor acima de tudo e saber disto me enche o coração de alegria.

A todos que me enviaram mensagens, minha gratidão é lágrimas de emoção.

Marcos Inhauser

ESTADO ESQUIZOFRÊNICO

Não é de hoje que falo, escrevo e protesto contra o Estado brasileiro nos seus diversos níveis. Há nele um aperfeiçoamento célere quando s...